Proteção contra incertezas

As crises sempre foram vistas por especialistas em vendas como um sinônimo de oportunidade. Enxergar o outro lado da moeda, ver o cenário com menos pessimismo e procurar identificar nos momentos difíceis boas fontes para negócios costumam estar entre as principais dicas quando o contexto econômico é mais desafiador. Agora, não poderia ser diferente. Com o Brasil crescendo menos e o aumento da inflação e dos juros comprometendo a renda da população, o mercado de seguros tem o desafio de não só manter crescimento na casa de dois dígitos e, com isso, elevar a fatia no Produto Interno Bruto (PIB), mas também ampliar o leque de proteções securitárias das pessoas, além do seguro de automóvel. Afinal, é justamente num momento de mais incertezas que o mercado de seguros, segundo especialistas ouvidos por Apólice, tem de cumprir o seu papel social, de levar proteção à sociedade.

É um momento, inclusive, de aliar e estreitar mais os interesses de seguradoras e corretores, na visão de Matias Ávila, vice-presidente Comercial da SulAmérica. “Os contratos de seguros têm demonstrado grande resiliência em quadros de crise e a indústria mostrou ter um comportamento de certa forma anticíclico em situações como essas”, observa ele.

Mesmo diante de contextos econômicos mais adversos, o executivo destaca que tanto as organizações como pessoas físicas dificilmente cogitam não manter em vigor as apólices que garantem seu patrimônio ou de sua família. Até mesmo porque os riscos tradicionais que rondam as pessoas têm mais destaque em um momento como o que o Brasil atravessa. Não bastasse isso, novas ameaças também podem aparecer diante de um estresse na economia brasileira.

Cresce, por exemplo, a preocupação de economistas com uma possível deterioração com os índices de desemprego no caso da manutenção do cenário atual, de baixo crescimento da economia em 2014. A melhor distribuição de renda possibilitou às pessoas mobiliarem suas casas com eletrodomésticos, comprarem o seu veículo 0 km e até mesmo a casa própria. No entanto, a situação financeira mais favorável das famílias veio acompanhada de orçamentos mais comprometidos que, combinados com uma menor expansão da economia brasileira, pode colocar em risco o patrimônio adquirido em uma eventual perda de emprego. Indicador da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que mede o medo das pessoas quanto ao desemprego subiu em setembro pelo segundo mês consecutivo em meio à falta de sinais de crescimento mais robusto da economia. Esse sentimento é maior, conforme a entidade, principalmente, entre pessoas que recebem até um salário mínimo. O medo da perda do emprego cresce a despeito de o Brasil apresentar um dos mais baixos índices de desemprego. De julho para agosto, o indicador caiu de 5,6% para 5,3% no melhor indicador desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em agosto de 2002. Enquanto isso, o seguro prestamista, que garante o pagamento de parcelas de qualquer tipo de financiamento ou crediário em caso de morte ou invalidez, continuou crescendo em taxas elevadas na esteira da maior preocupação da sociedade com o desemprego. Em julho, avançou quase 32% frente há um ano, totalizando R$ 628,8 milhões em prêmios. Como coberturas para perda de renda ainda não são muito difundidas no Brasil, a tendência, de acordo com Francisco Caiuby Vidigal Filho, presidente da Marítima Seguros, é de expansão contínua levando em conta o cenário econômico atual. “O seguro é um investimento necessário que trará tranqüilidade e que poderá ser uma importante ferramenta para ajudar o segurado a restabelecer suas finanças num período delicado em que, porventura, esteja passando”, explica ele.

Na opinião do executivo, as opções de produtos securitários podem variar dependendo do perfil do segurado. Ele destaca, contudo, a importância do seguro residência e de vida versus os custos dessas proteções.

Além do espaço para a expansão das diversas modalidades, uma vez que a penetração de seguros na economia brasileira estão abaixo dos 6%, a queda na quantidade de carro vendidos no Brasil no acumulado do ano (de 0,3%, segundo a Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores Fenabrave) mostra, na opinião de especialistas, a necessidade de diversificação da venda de seguros no Brasil. Para Hyung Mo Sung, CEO de Seguros Gerais da Zurich Seguros para o Brasil, o País caminha para um volume de vendas de veículos inferior ao visto em 2012, embora a Fenabrave ainda trabalhe com aumento de unidades comercializadas. “Esse cenário traz inseguranças. Saímos de um momento bastante otimista da economia brasileira para um momento de pessimismo. Uma expansão de 2,5% para a

economia brasileira não é tão boa mas, pelo menos, estamos crescendo”, avalia ele, acrescentando que assim como as oportunidades não eram tão excepcionais no passado, agora, o momento não é tão ruim como parece.

Para 2014, porém, Sung aposta no aquecimento da economia brasileira por conta do ano atípico de eleições presidenciais e, consequentemente, em mais oportunidades para o mercado de seguros. De janeiro a agosto, o setor cresceu 14,2% no acumulado do ano ante ao mesmo período de 2012, conforme dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Foram quase R$ 94,5 bilhões em prêmios vendidos no Brasil.

Alexandre Camillo, mentor do Clube dos Corretores de Seguros de São Paulo (CCS-SP), lembra que em um passado recente a situação da economia brasileira era “infinitamente” pior e, mesmo assim, a indústria de seguros e os corretores conseguiram se desenvolver. “Há um grande espaço a ser preenchido pela indústria de seguros no Brasil. Ainda levará anos para o crescimento médio anual do mercado desacelerar da faixa dos 20%”, destaca ele.

Dentre os segmentos em que o especialista vê oportunidades de crescimento no Brasil estão seguro auto popular, microsseguro e seguro de crédito, além

de planos de previdência privada voltados para saúde e educação. Já o corretor Luiz Alvarez Morales, da Lar Corretora, cobra mais aceitação por parte das seguradoras com atuação no Brasil. Segundo ele, se as companhias de seguros ampliassem a aceitação de risco, evidentemente fazendo a precificação adequada, o mercado teria chance de galgar um crescimento ainda maior, na casa dos 30% em um ano. Essa necessidade fica mais evidente, conforme Morales, diante da tendência de juros baixos no Brasil, embora neste momento, a trajetória seja de alta para conter a inflação. Isso porque com a redução da taxa básica de juros da economia brasileira a Selic as seguradoras se viram obrigadas a serem mais seletivas e precificarem melhor os riscos, uma vez que reduziram as chances de compensar no mercado financeiro as fraquezas do resultado operacional. “Para melhorarmos o nosso desempenho está na hora do segurador reaprender a trabalhar com seguros e esquecer a ciranda financeira”, critica Morales.

Oportunidade nas pequenas e médias empresas

Embora a demanda por seguros por parte da sociedade e das empresas esteja mais diversificada, em conseqüência não só do desenvolvimento do País, mas também do mercado securitário que passou a investir em uma comunicação mais amigável e presente com seu públicoalvo, há, na opinião de especialistas, muito espaço para crescer. A participação do seguro no PIB ainda é baixa e a experiência das pessoas com proteções securitárias se restringe, em grande maioria, ao seguro de automóvel. Esse é, de acordo com vice-presidente da Berk- ley Brasil, Robert Hufnagel, o maior desafio para os corretores de seguros no cenário atual: diversificação e especialização de produtos em paralelo com a administração da sua carteira em uma tentativa de explorar todas as oportunidades de outros produtos em um mesmo cliente. “Há um mercado imenso que ainda não conseguimos atender e não é raro encontrar clientes com necessidades que ainda nem foram abordadas pelo corretor, que apenas se preocupou em renovar o seguro de automóvel”, admite a corretora Roseli de Castro, presidente do Clube das Gurias RS.

No caso das pequenas e médias empresas, por exemplo, especialistas ressaltam a importância de levar determinadas modalidades de seguros que ainda estão mais restritas às grandes corporações ou companhias de capital aberto. Isso porque há riscos envolvendo a solidez e a necessidade de crédito dessas companhias, que fazem com que seus administradores tomem decisões para a sobrevivência da empresa, porém, um tanto quanto difíceis. É neste momento, segundo especialistas, que o seguro tem de estar presente. “D&O (responsabilidade civil dos administradores) e também o responsabilidade civil profissional conferem a proteção mais adequada aos dirigentes em momentos como estes”, sugere Hufnagel.

Embora sejam boas alternativas, Ávila, da SulAmérica, destaca a necessidade de não só as seguradoras, mas também os próprios corretores de seguros, conhecerem melhor as características e os benefícios desses seguros. No Brasil, conforme ele, a abrangência de produtos como esses ainda é “limitada”.

Os seguros D&O, por exemplo, acumulam crescimento de 19% de janeiro a agosto, com cerca de R$ 137 milhões de prêmios emitidos. No RC profissional, a elevação é ainda maior, de quase 25%, totalizando mais de R$ 103 milhões em prêmios.

Há ainda, conforme especialistas, a necessidade de ofertar os produtos mais essenciais para pequenas e médias empresas. Dentre eles, estão não só os que ofereçam proteção para o seu patrimônio e o seguro saúde para as empresas que desejam reter bons talentos, mas também levar mais um benefício para seus colaboradores.

Sung, da Zurich, lembra que, para as pessoas jurídicas, o importante é que o sinistro não aconteça. Por isso, a necessidade, segundo ele, de os corretores ofereçam apólices que protejam as corporações de lucros cessantes, ou seja, que garanta a transferência ao seguro das perdas financeiras que sua empresa venha sofrer em decorrência de vários eventos, como incêndio, explosão, eventos climáticos, danos elétricos e outros.

Consolidação

No mercado de corretagem de seguros, o cenário econômico mais difícil não só traz oportunidades de vendas, mas também aumenta as chances de maior consolidação neste setor que ainda é bastante fragmentado, na opinião de especialistas. São cerca de 60 mil corretores no Brasil, sendo 35 mil pessoas físicas e 25 mil pessoas jurídicas, conforme dados da Federação Nacional dos Corretores de Seguros Privados (Fenacor). “A carga abusiva de impostos e o imenso número de tarefas que as seguradoras deixaram a cargo dos corretores podem fazer com que a saída para muitos corretores seja associações com grandes corretoras ou cooperativas”, avalia a corretora Roseli.

Vidigal Filho, da Marítima, acredita que embora este movimento seja natural, levando em conta o contexto econômico, a presença do corretor individual será mantida graças à confiança das famílias neste profissional.

Entre as seguradoras, a concorrência no Brasil deve permanecer aquecida e continuar atraindo novos players atentos às oportunidades de crescimento do mercado de seguros e resseguros local, segundo executivos entrevistados por Apólice. No entanto, cada vez mais essa competitividade se dará de maneira mais especializada, na visão de Ávila, da SulAmérica, em cada nicho de mercado. “Isso é bom para o corretor na medida em que este profissional pode estimular a oferta de novos produtos e serviços”, conclui.

FONTE: Revista Apólice Nacional

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