Preço de acordo com a conduta do motorista

Seguradoras devem recorrer à telemática para analisar comportamento no trânsito para diferenciar a cobrança

Enquanto as montadoras se esforçam para manter o Brasil como quarto mercado mundial de automóveis, as seguradoras inovam para saltar da 15a colocação no ranking geral de seguros para ser o oitavo maior do planeta. Pelo menos é o que revela o estudo da Munich Re, principal resseguradora do setor. Se as projeções se confirmarem, o mercado de seguros brasileiro entrará na próxima década mais robusto do que é hoje.

Boa parte do salto da indústria de seguros será sustentada pela vendas de seguros de carros. Dos R$ 140 bilhões em vendas totais do mercado segurador, de setembro de 2012 a agosto de 2013, o seguro do carro representou 19% do total, com R$ 27,9 bilhões, aumento de 19,8% em comparação com o período anterior. E o segundo produto mais vendido, superado apenas pelo plano de previdência VGBL, como mostra estudo do consultor Flavio Faggion, diretor presidente da Siscorp, empresa de tecnologia e informação.

“O aumento do poder aquisitivo da população e a maior preocupação do consumidor com a violência impulsionaram o mercado”, afirma Neival Freitas, diretor da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). De janeiro a agosto, as vendas de apólices de carro totalizaram R$ 16,6 bilhões, 21,8% a mais do que em igual período de 2012. Só o seguro de Responsabilidade Civil Facultativa (RCF-V) cresceu 24,9%, com arrecadação de R$ 3,8 bilhões de janeiro a agosto.

Apesar dos números, a estimativa é que menos de 25% da frota de carros circulante conta com seguro. Até agosto, houve uma desaceleração no licenciamento de novos veículos em relação ao ano passado. “Ou seja, é fundamental criar oportunidades para quem está entrando no mercado”, afirma Pedro Pimenta, diretor de automóvel da Allianz. Para ele, o seguro popular é uma das principais novidades do setor para 2014. “Este modelo é voltado para os clientes que estão contratando o seguro auto pela primeira vez. Este público precisa de uma orientação especial, porque não tem muita intimidade com o segmento, mas ao mesmo tempo busca um produto de qualidade e custo atrativo.”

Se os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam quase 50 milhões de carros em circulação e o setor tem menos de 13 milhões com seguro, há muito espaço para crescer. “Este é o nosso grande desafio”, afirma Marcelo Sebastião, diretor de automóvel da Porto Seguro, a maior seguradora do segmento. Alguns acreditam não correr riscos, outros afirmam que o seguro é caro e há também os que não recebem uma oferta apropriada. “Temos três marcas (Porto Seguros, Azul Seguros e Itaú Seguros) para chegarmos até esses consumidores. Investimos para saber o que eles querem para aprimorarmos os serviços prestados, algo que nos ajuda a manter a liderança e incluir novos segurados no mercado.”

Segundo Murilo Setti Riedel, vice-presidente da HDI, sexta maior seguradora de carros do Brasil, 2013 se caracteriza por ser um ano mais nervoso do que o usual. Inflação nos custos de reposição e nível de incerteza na venda de carros no Brasil são fatores que geraram estresse. “Apesar da estagnação na economia, o mercado continua aquecido com os quase 4 milhões de veículos novos que entraram no mercado, sendo boa parte segurada”, diz. Com otimismo, ele prevê aumento de 50% na frota segurada nos próximos anos.

Uma das estratégias para aumentar a base de segurados é baratear o custo do seguro para carros com mais de cinco anos de uso. Para que isso aconteça, as empresas de seguros aguardam a aprovação do PLC 38/2013, que regulamenta o funcionamento de empresas de desmontagem de veículos. “A expectativa da FenSeg é que a medida permita o controle e a rastreabilidade das peças usadas reaproveitadas com o desmonte de veículos, o que, com certeza, terá forte impacto para a redução do roubo e furto e, consequentemente, no preço final.”

Corretores afirmam que o preço é determinante em todas as faixas de mercado, da menor renda ao rico. “Por isso, apostamos em preço e na divulgação dos serviços diferenciados, como desconto de 40% na franquia e carro reserva inclusive para o terceiro envolvido no acidente”, diz o diretor da BB Mapfre, que tem 2,4 milhões de segurados, considerando-se carros, motos, caminhões e máquinas agrícolas. Cláudio Royo, sócio da Brasil Insurance, concorda com a estratégia de Barros. “Respeitamos a individualidade de cada cliente e apontamos o melhor negócio considerando-se as características de cada um”, afirma o executivo da holding, que conta com 180 mil veículos em carteira.

A briga vai esquentar com os investimentos para melhorar os preços. Nas seguradoras, há projetos guardados que envolvem a telemática como ponto de anáüse dentro da composição do preço de seguros. Ou seja, o mercado segurador estuda implementar modelo de preços com base no comportamento real dos segurados no trânsito, deixando as variáveis genéricas, como sexo e idade, para segundo plano.

“O Brasil está muito avançado neste aspecto em relação a outros países, que não têm essa sofisticação de informações e perfis de condutores para precificação de seguros de automóveis”, diz João Bosco Medeiros, diretor comercial de seguros gerais da Zurich Seguros. Desta forma, dois segurados de 18 anos com o mesmo veículo, na mesma região, podem ter preços diferentes, tudo isso em função do seu comportamento no trânsito.

“Existem equipamentos dotados de GPS e acelerômetros que, quando instalados nos veículos, tornam possível aferir o real comportamento dos segurados no trânsito. O comportamento, se representar prática segura, tanto em termos de velocidade, condução perigosa em curvas, como estacionar em garagem, pode gerar benefícios nos preços para os clientes”, diz Paulo Umeki, vice-presidente de seguros pessoais da Liberty Seguros.

Além de preço, que ainda é o fator decisivo para a compra, afirma Tiago Mateus das Neves, diretor da divisão Affinity, as seguradoras querem reduzir custos, aumentar a base de seguros, principalmente o seguro de responsabilidade civil de terceiros e surpreender os clientes. “Montamos os programas de seguros para algumas montadoras e sentimos na pele a pressão por custo/ benefício”, afirma.

“Vemos que o futuro estará na prestação de serviços, e se destacarão as seguradoras que oferecerem os melhores serviços para os clientes”, afirma Medeiros, da Zurich. Habitualmente, a motivação de contratar um seguro de automóvel é proteger o bem. Segundo ele, a média de roubos de automóveis no Brasil é de 2%, o que é um índice baixo. Na Zurich, cerca de 30% das solicitações de uso de quem possui um seguro de automóvel são para acionar serviços de assistência como o guincho, assistência viagem, assistência à residência do cliente, porque este último está atrelado sem custos adicionais ao seguro de automóvel.”

Esse dado fez com que o grupo suíço incluísse as coberturas de desemprego e de doenças graves. “Nosso objetivo é minimizar o estresse de quem acabou de passar por estas situações, deixando o segurado despreocupado financeiramente sobre os pagamentos da parcela do seguro de automóvel. Assim, de 2008 para 2013, a carteira de automóveis da Zurich cresceu 600%, saindo de 100 mil carros segurados em 2008 para os atuais 600 mil. Nos últimos 12 meses, o faturamento chegou a R$ 1 bilhão.

A SulAmérica tem um seguro feito sob medida para as mulheres. Uma das vantagens é a opção de contratação da franquia zero, ou seja, se a segurada bater com o carro, o primeiro conserto é por conta da SuL^mérica, mesmo que o valor do reparo seja menor que o da franquia indicada na apólice. As clientes contam ainda com um profissional para trocar o pneu do carro quantas vezes precisar. O mesmo vale para o serviço de socorro mecânico e reboque. Em caso de roubo ou furto do carro, a segurada ainda conta com acompanhante até a delegacia para registrar o boletim de ocorrência e depois levá-la para casa. “Pesquisas apontaram que a essência procurada pelas mulheres em um seguro de automóvel é a segurança.

Buscamos, assim, oferecer serviços que garantem a proteção da cliente em algumas situações”, diz Eduardo Dal Ri, diretor de automóveis da empresa.

A Bradesco Seguros aposta no pacote combo. O Bradesco Seguro Auto + Residencial possibilita ao segurado proteger em uma única contratação seu veículo e sua residência, afirma Saint Clair Pereira Lima, diretor técnico atuarial da Bradesco Auto/RE, com cerca de 1,6 milhão de segurados.

A Marítima investe em serviços e expansão fora do eixo Rio/São Paulo. Atualmente, os segurados de qualquer plano de seguro de automóvel contam com cobertura de vidros em todo o território nacional, bem como inclusão do serviço para os retrovisores externos. “Outra vantagem que oferecemos está no desconto extensivo para cônjuge e filhos, independentemente do estado civil. Além disso, o bônus será preservado quando houver transferência entre pais e filhos”, diz Adilson Raul Silva, superintendente da área de automóvel da seguradora, que tem 388 mil veículos protegidos.

Reduzir a criminalidade e acompanhar o fluxo das quadrilhas é uma preocupação constante para melhorar o preço final do produto. Entre janeiro e junho, 1.256 veículos foram roubados por dia em todo o território nacional, algo em torno de 38 mil por mês. Se este cenário se repetir nos próximos seis meses, deve-se fechar 2013 com mais de 458 mil casos. “A freqüência com que um determinado modelo de automóvel é roubado é critério para a composição do preço do seguro, bem como o perfil do motorista. Por isso, alterar ou rever alguns comportamentos é válido não só para o mercado perceber que aquele modelo não é mais alvo de ladrões e baixar o preço do seguro, mas principalmente para evitar um trauma dentro de uma família”, afirma o consultor de riscos de transportes e frotas da Zurich Seguros para a América Latina, Luis Vitiritti, responsável pela elaboração do estudo.

As manifestações que ocorrem no Brasil, marcadas por violência e depredação de patrimônios, não mudaram o preço do seguro, assim como a ocorrência de tornados no Brasil. “O seguro de auto é, de forma geral, bastante completo. Existem poucas exclusões nas condições de seguros e, mesmo estas, podem ser revistas pela seguradora no momento do pedido de indenização”, diz o diretor de massificados da Tokio Marine Seguradora, Marcelo Goldman. A carteira de auto da Tokio Marine atingiu mais de 750 mil veículos segurados. “Este ano, até setembro, crescemos 43%, embalados por novidades e investimento na marca”, ressalta.

Ampliar os canais de distribuição é uma das metas das seguradoras. Entre eles, a proliferação de corretoras on-line se destacou nos últimos anos, mas o boom deste tipo de vendas ainda não aconteceu. Um dos motivos é que as seguradoras não praticam políticas de preços diferenciadas nos canais on-line em respeito ao canal tradicional, o corretor de seguros, responsável por 70% das vendas do produto.

“Como a cultura de seguros não é conhecida no Brasil, as pessoas tendem a achar que o seguro é uma commodity. Cabe ao corretor, por meio da venda consultiva, instruir e alertar para as diferenças, tomando como base a entrevista com o cliente para entender o seu perfil de risco e suas necessidades de coberturas e pacote de serviços”, diz Marcelo Blay, fundador da Minuto Seguros. O segundo item mais valorizado pelos consumidores, segundo a corretora on-line Minuto, é a seguradora. “Em cada região do Brasil existe um grupo preferido de seguradoras, que não necessariamente se repete”, afirma. O terceiro e último item priorizado é o pacote de serviços, mais especificamente focado nos serviços de assistência de guincho.

Entre as queixas, a vistoria prévia é a campeã, atividade terceirizada pelas seguradoras. “A grande insatisfação se dá com a falta de cumprimento de prazos e a falta de postura profissional das pessoas que executam os serviços, gerando uma gama muito grande de reclamações”, destaca.

FONTE: Valor Econômico

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