Os gigantes de hoje atraem os gigantes de amanhã

ISTOÉ Dinheiro – Finanças – 07/03/2014

A mais recente iniciativa do empresário paulista Jean Paul Cutrona, proprietário da incorporadora Banco de Projetos Imobiliários, foi idealizar a construção de um grupo de edifícios residenciais e comerciais em Osasco. Para isso, ele precisava de R$ 12 milhões em capital. Cutrona resolveu conversar com um vizinho. No caso, o vizinho tratava-se do Brades-co, onde obteve o empréstimo. “Sou cliente do banco há dez anos, e agora estou usando mais o crédito”, diz ele. A exemplo de Cutrona, os pequenos e médios empresários estão encontrando gerentes mais receptivos a seus pedidos de financiamento.

Muitos deles serão, quem sabe, gigantes dos negócios do futuro. “Depois do crescimento do consumo nos últimos anos, a próxima arrancada do desenvolvimento brasileiro virá das empresas”, diz Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco. De olho nesse vetor de crescimento, o banco anunciou, no dia 18 de fevereiro, a liberação de R$ 7 bilhões para essa categoria de empréstimos, um aumento de 6% na carteira desses créditos. “A inadimplência das pequenas e médias empresas caiu de 3,7% em 2012 para 3,1% em 2013, e essa é uma das principais motivações para a aposta nesse segmento”, diz Altair Antônio de Souza, diretor-executivo do Bradesco.

Segundo Souza, o banco atende 1,4 milhão de pequenas e médias empresas, que faturam até R$ 30 milhões por ano, uma carteira de crédito de R$ 135 bilhões, valor que já supera o crédito disponível para pessoa física, atualmente em R$ 130,7 bilhões. Essa decisão representa uma guinada na estratégia dos bancos. O aumento de 16,2% observado no crédito para as empresas ao longo de 2013 não teve uma distribuição igualitária que contemplasse todas as pessoas jurídicas. A maior parte dos cerca de seis milhões de pequenas e médias empresas brasileiras, que faturam até R$ 60 milhões por ano, ainda vem enfrentando muitas dificuldades para obter financiamentos.

Alguns dos motivos são comuns às companhias de todos os portes, como a alta dos juros e a inadimplência, que permaneceram elevadas por vários meses e só começaram a recuar no fim de 2013. Outros são específicos, como a dificuldade de esses clientes apresentarem garantias e comprovar seu faturamento. Prova disso é que, em 2013, os resultados dos três principais bancos privados brasileiros mostram que apenas o Bradesco ampliou os empréstimos para elas, tendo encerrado o ano com uma carteira de R$ 128 bilhões, crescimento de 11,5% em relação a 2012.

Os demais bancos privados foram mais cautelosos: o Itaú, inclusive, chegou a diminuir sua oferta em relação ao ano anterior em 3,9%, para R$ 85,4 bilhões, acompanhado pelo Santander, com uma redução de 4%, para R$ 37,7 bilhões. Neste ano, o quadro deve mudar. “Pequenas e médias empresas costumam pagar juros mais elevados do que as corporações de grande porte”, afirma João Carlos Natal, consultor do Sebrae São Paulo. Ampliar os negócios com essa freguesia depende, porém, de investimentos em tecnologia. “Uma das grandes reivindicações dessas empresas é conseguir fazer cobranças via celular, reduzindo o custo e aumentando a agilidade”, afirma Souza, do Bradesco.

O empresário Cutrona (à esq.) e o gerente Souza: dinheiro emprestado com o vizinho

A iniciativa mais recente do banco é o Pos Mobile, sistema que permite ao empresário capturar as informações dos cartões de débito e crédito de seus clientes pelo celular, e que foi desenvolvido em parceria com a Cielo. “Isso reduz as taxas cobradas do cliente de R$ 100 por mês para menos de R$ 12”, diz ele. Já a estratégia dos bancos públicos é manter o ritmo de crescimento. O Banco do Brasil atende mais de 2,3 milhões de pequenas e médias empresas, para quem emprestou R$ 100 bilhões em 2013, um aumento de 12,3% em relação a 2012. Em dezembro, o banco estatal reabriu sua linha de crédito para financiar impostos de empresas que faturam até R$ 3,6 milhões por ano.

Para viabilizar essa estratégia, o BB iniciou a criação de uma rede de agências específicas para os pequenos empresários. “Já inauguramos três unidades, em Belo Horizonte, Campo Grande e Bauru, no interior de São Paulo”, diz Adilson do Nascimento, diretor de micro e pequenas empresas do BB. A Caixa segue o mesmo caminho. O banco ainda não divulgou seu balanço de 2013, mas a estimativa dos analistas é que os empréstimos para o setor tenham chegado a R$ 50 bilhões, um crescimento de 60%. Certo é que a instituição criou, em 2013, uma linha de crédito para os empresários interessados em financiar o pagamento de despesas de fim de ano.

“Já foram desembolsados R$ 3,4 bilhões para 1,7 milhão de empresas”, diz Eugênia Regina de Melo, superintendente nacional de empreendedorismo do banco. Ao contrário do Bradesco, cuja estratégia privilegia o crescimento no crédito em geral para as pequenas, o HSBC prefere apostar em nichos. O esforço do banco foi ampliar uma linha de financiamento à importação, dedicada às empresas menores que estão interessadas em fazer negócios fora do Brasil. A adesão ao financiamento cresceu 13% em 2013. “Aproveitamos a estrutura internacional do banco para permitir que essas empresas tenham acesso ao mercado global”, diz o diretor Marcelo Aleixo.

Apesar do esforço dos bancos, os entraves do setor impedem que o crédito atinja todo o seu potencial. Além dos problemas de comprovação de receita e garantias, outro vilão é a informalidade. Natal, do Sebrae, avalia que esse problema é, em muitos casos, fatal para as novas empresas. “Quando não conseguem obter créditos específicos com juros mais baixos, elas recorrem a financiamentos caros e inadequados”, afirma. No entanto, ele se diz otimista com a ampliação da parcela destinada às pequenas empresas no crédito bancário. Segundo ele, mais e mais empresas têm investido em melhorias de gestão e controles, o que amplia sua capacidade de tomar empréstimos e deixam os bancos mais confortáveis para apostar no setor.

O novo alvo das seguradoras

Não são apenas os bancos que elegeram as pequenas e médias empresas como clientes preferenciais em 2014. Seguradoras, como a suíça Zurich e a japonesa Yasuda, tradicionalmente voltadas para o atendimento a grandes empresas, vêm ampliando sua participação nesse negócio. A Zurich iniciou, em abril de 2013, um processo de adaptação de seus produtos corporativos, como seguro patrimonial e seguro de vida para funcionários de companhias de menor porte.

Leandro Poli: “Ainda há muito espaço para crescer no segmento de PME s”

A primeira fase será focada em atender apenas pequenas indústrias. Segundo Bruno Ciolli, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Zurich, o mercado potencial no Brasil é de seis mil empresas. “O atendimento a esse público requer maior profissionalização, já que é mais complexo, mas aumenta a possibilidade de negócios em comparação com o seguroautomotivo, um segmento mais concorrido”, diz. A Yasuda oferece apólices específicas para consultórios e escritórios.

Em 2013, o total de prêmios auferidos com elas foi de R$ 20 milhões, equivalente a 25% das receitas obtidas no segmento das micro e pequenas empresas. A cifra representa um crescimento de 15% em relação a 2012. Segundo Leandro Poli, diretor técnico da Yasuda, a estimativa é de que o segmento cresça 20% neste ano. “Também estamos fazendo mais negócios com bares, restaurantes e pousadas”, diz ele. “É um processo difícil, que requer uma mudança cultural, mas vale a pena por seu potencial.” (L.G.P.)
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