MUDANÇA DE CENÁRIO AMPLIA A OFERTA

Produtos tendem a ganhar força como recurso de gestão. Apenas 15% das empresas do segmento possuem apólices contratadas

O mercado de seguros tem obtido resultados animadores no segmento de pequenas e médias empresas, mas este desempenho é considerado uma parte modesta dentro do crescimento esperado daqui para frente. Nos próximos anos, a tendência é de que a oferta e a diversificação de produtos se intensifiquem ainda mais, porém em um cenário no qual o seguro empresarial deixará de ser visto basicamente como uma compensação para prejuízos materiais e ganhará importância também como recurso de gestão um instrumento capaz de manter a empresa em pé nos momentos mais difíceis, contribuir para a retenção de profissionais e fornecer diferenciais competitivos na disputa pelos clientes.

Segundo os especialistas, apólices com foco na cobertura de lucros cessantes, saúde de funcionários e responsabilidade civil deverão ser cada vez mais importantes entre as pequenas e médias, que se proliferam no país, mas ainda representam menos de 20% dos seguros corporativos. “A pequena e média empresa está para

o seguro corporativo assim como a classe C está para o individual. O potencial de crescimento é enorme”, define Aura Rebelo, diretora de produtos e marketing da Icatu Seguros.

Se nas grandes companhias a contratação de seguros pode ser considerada uma tradição, nas pequenas e médias empresas (PMEs) essa cultura está em pleno desenvolvimento, refletindo a expansão do empreendendorismo na história recente do Brasil. A falta de estatísticas específicas sobre as PMEs, os dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) ajudam a mostrai’ o poder de fogo do segmento para as seguradoras: são cerca de 8,3 milhões de empreendimentos, que perfazem 99% do total de empresas brasileiras e 25% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. São companhias responsáveis por mais da metade dos empregos formais e 40% da massa salarial, com 50% delas atuando na área comercial.

Estudos de mercado realizados pela Porto Seguro indicam que apenas 15% das PMEs brasileiras possuem apólices, segundo Jarbas Medeiros, gerente da área de ramos elementares da companhia, que tem 80% de sua carteira coberta por PMEs, Há cerca de cinco anos, o índice estava em 65%. “Além de ter 85% de potencial inexplorado na área de seguros, o segmento é menos afetado por concorrência internacional e crises econômicas”, diz Medeiros. O ponto que caracteriza os seguros elaborados exclusivamente para pequenas e médias é a facilidade de contratação e a simplicidade dos contratos. As seguradoras procuram facilitar o acesso por saber que a maioria dos empreendedores não conta com departamentos espec ial izados, com o t ribiU á do o u fi n a ace i ro, por exemplo, que são comuns nas grandes companhias.

Em 2013, a carteira total da Porto Seguro cresceu 11%, enquanto a de PMEs avançou 14%. Na Icatu, que ingressou há dois anos no ramo “vida”, 5% das receitas com seguros são obtidas com as pequenas e médias empresas, e a expectativa é triplicar esta participação em até quatro anos. Na Bradesco Seguros, o segmento apresentou aumento de 26,4% em número de beneficiários no ano passado. A BB e Mapfre fechou 2013 com um aumento de 25% na participação das PMEs em seu faturamento, Na Caixa Seguros, as receitas com segu ros para micros, pequenas e médias companhias correspondem a 5% da base dos clientes e, em 20 i 3, o volume teve um aumento acima de 50% tanto na área patromonial quanto na de saúcle, resultadoque a instituição espera repetir neste ano, segu ndo o superin tendente de piodutospara pessoas jurídicas da Caixa Seguros, Marcos Eduardo de

Carvalho. “As empresas estão percebendo que o seguro também é um instrumento de valorização e retenção de pessoal, na área de vida e saúde, e de proteção do próprio negócio, no ramo patrimonial”, afirma.

Com o avanço na oferta de emprego e maior profissionalização, coberturas médicas e odontológicas tornaram-se para muitas pequenas e médias empresas uma espécie de aditivo aos salários, ajudando a manter ou atrair talentos. “Com isso, a empresa atua também no gerenciamento de risco, já que estes cuidados preventivos de saúde resultarão em menos faltas. Em uma empresa pequena, a falta de um funcionário pode provocar um enorme problema operacional”, diz Reinaldo Amorim, sócio da PwC e especialista em seguros. Empresas como Icatu, Caixa e Bradesco oferecem produtos nesta linha. São planos clássicos de seguro saúde acompanhados de diferentes pacotes de assistências, que ficam à escolha do cliente.

A combinação de seguro convencional com um leque de benefícios também tem sido uma marca dos seguros patrimoniais, cujas assistências envolvem serviços

como reparo nas instalações das empresas ou soluções momentâneas, em caso de imprevistos. “O seguro patrimonial tem um caráter social imenso, pois preserva empresas e, consequentemente, empregos. Hoje, com algo em torno de R$ 1 mil, R$ 1,5 mil por ano, uma pequena empresa pode fazer um seguro básico com algumas coberturas acessórias”, afirma Marco Antôn io Gonçalves, diretor-gerente da Bradesco Seguros.

Em todos os tipos de seguro, a customização com base nas necessidades ou peculiaridades dos clientes tem feito com que o mercado se clesenvolva em nichos. São seguros específicos para bares, restaurantes, petshops, salões de beleza, padarias, academias, oficinas mecânicas.

A Yasuda Seguros trabalha com cerca de 70 tipos de cobertura para pequenas e médias empresas. O maior número de contratações ocorre nos ramos de incêndio, pane elétrica e roubo de bens, segundo o gestor de produtos compreensivos da empresa, Anderson Satio. A Yasuda tem produtos específicos para bares e restaurantes, hotéis, pousadas e padarias, e lançou neste ano uma apólice específica para salões de beleza, com destaque

para coberturas de responsabilidade civil. “Se o salão de cabeleireiro ocasionar algum dano ao cliente, como uma queimadura do cabelo por uso de secador, por exemplo, nós fazemos o ressarcimento”, afirma Satio.

Hojeêmiritodifícil uma grande empresa aceitar fazer negócio com parceiros que não possuam amplas coberturas de seguro, segundo o especialista em seguros Carlos Barros de Moura, da Barros DeMoura & Associados. “Se você fornece um produto alimentício para uma grande corporação, ela exige que este produto tenha seguro de responsabilidade civil, poique.se alguém ficar intoxicado por causa fie um ingrediente ou algum outro problema no alimento que leva sua marca, a empresa compradora quer ser prontamente indenizada”, diz Moura. “No caso dos importadores também. Você não vende para Estados Unidos e Canadá sem o RC Produto”, afirma. Na Porto Seguro, há cinco anos, menos de 30% das empresas contratavam seguro de respondabilidade civil e hoje este número está acima cie 60%, segundo Medeiros.

Para Danilo Silveira, superintendente de seguros tradicionais do grupo BB e Mapfre, os seguros de res

ponsabilidade civil serão o grande destaque na área de pequenas e médias nos próximos anos. “Hoje o brasileiro está muito mais consciente de seus direitos e tem muito mais gana de reclamar ou reagir a algum dano. As empresas terão de se precaver e esta proteção deverá se t ransformar em uma prioridade em todas as etapas das cadeias produtivas”, afirma.

Outro produto promissor, segundo os especialistas, é o seguro voltado para lucro cessante, que compensa o prejuízo da empresa que foi forçada a suspender suas operações por um determinado período. “Um incêndio pode destruir uma empresa e deixá-la fora de operação por um tempo, No entanto, isso não quer dizer que ela poderá ficar sem pagar os funcionários e cumprir suas obrigações”, explica Satio. É uma garanria, dizem as seguradoras, de que haverá uma chance de recuperação da empresa depois de um sinistro que poderia levá-la ã falência, sem escalas.

Nos últimos anos os preços ficaram mais acessíveis. Segundo cálculos de Moura, até os anos 80 a menor taxa era a de seguro contra incêndio. Naquela época, quem fazia um seguro residencial de RS 100 mi 1, pagava cerca de R$ 1 mil por ano, ou 0,10%. Hoje, esta taxa caiu para 0,03%. Apesar de estar mais acessível, o seguro enfrenta dificuldades para sua popularização no país à exeessão das apólices de autorrtóveis, já praticamente indissociáveis da compra. Moura defende para os seguros estímulo semelhante ao que foi dado para a caderneta cie poupança no Brasil. “Seguro é um investimento na manutenção da capacidade de gerar riquezas”, diz.

A falta de conhecimento sobre os seguros disponíveis, na opinião dos executivos, é um dos motivos para que a maior parte do mercado siga inexplorada. Outros problemas como a resistência das seguradoras em pagar os sinistros, muito mais comum no passado-até hoje repercutem na falta de credibilidade aos olhos de muitos consumidores. “Quem contrata seguro, precisa saber exatamente o que está contratando. Os textos das apólices estão mais objetivos e claros, mas ainda há uma zona cinzenta muito grande em relação a este aspecto, o que acaba afetando a credibilidade. A pessoa pensa que tem cobertura e, na hora em que necessita, descobre que não tem direito ao que precisa”, argumenta Moura.

Aura,da Ica tu, chama atenção também para a importância do pós-venda. “Devemos trabalhar em parceria com os corretores, oferecendo produtos simples e aproveitando o potencial dos nichos, mas sem perder de vista a meta de desenvolver um trabalho pós-venda de qual idade. Isto se faz com o tempo, construindo a questão da credibilidade,da confiança, de maneira tão simples quanto entregando o que você prometeu”, afirma. A julgar pelos lançamentos dos últimos anos, a competição é intensa entre as companhias seguradoras, os produtos são bastante parecidos e pouco conhecidos pelas pequenas e médias empresas. “A questão é esta: potencial o mercado tem, mas é preciso encontrar meiospara que as pequenas e médias empresas comprem”, afirma Moura.

Valor Seguros I PME PATRI pg 70 e 71 0611

Valor Seguros J PME PATRI pg 72 e 73 0611

Fonte: Valor Econômico 10/06/2014