Marítima volta-se para o Oriente

Condições favoráveis do mercado brasileiro estimulam o Grupo Sompo, do Japão, a aumentar investimento no país e assumir o controle da seguradora nacional

O ano começou com uma união no mercado segurador brasileiro. No final de janeiro, o grupo Sompo Japan Insurance aumentou sua participação no capital social da Marítima Seguros de 50% para 88,2%, obtendo, assim, o controle da empresa. A operação, realizada por meio da Yasuda Seguros, subsidiária da Sompo no país, envolveu o aporte de R$ 200 milhões e ainda deverá ser analisada por órgãos de defesa da concorrência, tanto do Brasil quanto do Japão.

De janeiro a setembro do ano passado, a Marítima registrou R$ 1,2 bilhão em prêmios – 15,9% a mais que no mesmo período de 2011. Os maiores resultados da seguradora vieram dos ramos de automóveis (R$ 429,9 milhões), elementares (R$ 391 milhões), de saúde (R$ 326,4 milhões) e de pessoas (R$ 61,4 milhões).

O negócio foi firmado em um momento favorável para a expansão do setor segurador, tanto no Brasil como nos demais países da América Latina. Um estudo da consultoria Ernst & Young, divulgado em janeiro deste ano, estima em US$ 48 bilhões o montante de prêmios em seguros de vida na região em 2012. Desse total, US$ 28 bilhões foram movimentados no mercado brasileiro. Dentre os prêmios relativos a apólices de ramos de não-vida (que incluem seguros automotivos, de saúde e patrimoniais), os montantes alcançam US$ 73 bilhões e USS 23 bilhões, respectivamente.

De forma semelhante, um levantamento divulgado no mês passado pela espanhola Fundación Mapfre, que considerou os resultados até 2011, chegou à conclusão de que a indústria vem crescendo na América Latina, com destaque para o Brasil que naquele ano já detinha uma participação de mercado de 33% na região, totalizando € 44,9 bilhões em prêmios nos segmentos vida e não-vida.

De acordo com o professor de Finanças da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Adriano Gomes, a expansão dos seguros no Brasil é puxada pelo aumento de renda (e, portanto, do consumo) do brasileiro e deverá levar à consolidação das empresas do setor. “Temos observado algumas companhias voltando-se para os ramos elementares, focados principalmente nos seguros automotivos, em razão do aumento das vendas nos últimos anos. E um bom momento para companhias mais capitalizadas, ou que queiram ingressar em segmentos nas quais ainda não atuam, se associarem com outras empresas.”

Para ele, a atratividade do Brasil junto às grandes seguradoras internacionais decorre do crescimento da economia e da ainda baixa penetração dos seguros junto à população, mas esbarra em alguns problemas. “O arrefecimento do crescimento econômico do país, influenciado pelos baixos resultados na expansão do PIB [Produto Interno Bruto] e as manobras fiscais realizadas pelo governo produziram certo recuo, tanto de investidores internacionais quanto nacionais. Eles estão em compasso de espera, aguardando a definição de marcos regulatórios que evitem problemas semelhantes ao enfrentado pelo setor elétrico, com a imposição de regras pelo governo federal”, avalia.

OPORTUNIDADES

Dois fatores levaram o grupo Sompo Japan a adquirir o controle da Marítima por meio da Yasuda: as oportunidades de expansão oferecidas pelo mercado brasileiro e a dificuldade de crescimento do setor no Japão. “A economia lá está parada e o mercado de seguros, amadurecido. Além disso, temos características diferentes de consumo no Japão demora-se mais para trocar de carro, por exemplo, do que no Brasil”, pondera o diretor-executivo da Yasuda, Luiz Macoto.

Na avaliação do executivo, outras regiões do mundo também não oferecem perspectivas favoráveis às seguradoras japonesas, como é o caso da Europa e dos Estados Unidos. “Já a economia brasileira não só está em fase de crescimento, com elevação na massa de consumidores, como também dá segurança aos nossos investimentos em virtude da estabilidade política.”

De acordo com a administração da Marítima, nada muda na forma como a empresa atua, mesmo depois que a operação de compra pelo grupo Sompo Japan for aprovada pelos órgãos regulatórios brasileiros e japoneses. Essa decisão chegou mesmo a ser mencionada em janeiro no comunicado das companhias, no qual foi definida a permanência do atual presidente da Marítima, Francisco Caiuby Vidigal, no comando do Conselho de Administração. O atual vice-presidente da companhia, Francisco Caiuby Vidigal Filho, também continua na direção, passando a ocupar a presidência da diretoria da seguradora.

“A Marítima continuará agindo da forma habitual, ainda que muitas coisas tendam a melhorar. Estamos com um projeto de investimentos em tecnologia, com sistemas mais complexos. Além disso, iremos nos beneficiar da expertise japonesa na parte de controles internos, que ajudam a administrar melhor a empresa”, afirma Vidigal Filho.

Também não deverá haver mudança no escopo das duas seguradoras aqui no Brasil. A Yasuda manterá uma atuação mais voltada ao setor corporativo, enquanto a Marítima deverá continuar com suas operações divididas entre mercado automotivo, ramos elementares e benefícios (que agrega as áreas de saúde e vida). “Achamos essa divisão bem interessante. Pretendemos crescer neste ano em torno de 20%, com expansão em todos os segmentos mais ou menos nesse percentual”, acrescenta o vice-presidente da Marítima, ressaltando as oportunidades geradas pela expansão em regiões como o Nordeste e o Centro-Oeste, onde a seguradora tem aberto diversos escritórios de representação nos últimos dois anos.

“Temos marcas diferentes: uma no segmento massificado e outra no corporativo. Queremos que as duas companhias cresçam em seus respectivos setores”, complementa Macoto. “A Marítima tem uma marca valiosa no país, assim como a Yasuda ainda que esta não seja tão conhecida do grande público.”

Fonte: Revista América Economia

 

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