DE OLHO NO AVANÇO DA ECONOMIA

Afetado pelo baixo crescimento do país, o segmento aposta em novas obras para avançar. Foco dos produtos é o gerenciamento de riscos

O aumento dos acidentes e da criminalidade nos últimos 20 anos levou o seguro de transporte de cargas a virar peça essencial na vida das empresas, para que possam seguir operando com taxas adequadas de rentabilidade. Dados de 2013 da Superintendência Nacional de Seguros Privados (Susep) mostram, no entanto, que o ramo de transportes foi um dos que menos cresceram de um ano para outro no setor de seguros gerais: 3,58% (RS 2,52 bilhões em prêmios diretos em 2013 ante RS 2,44 bilhões em 2012).

A perspecriva de um desempenho melhor neste ano para o seguro de carga está relacionada aos investimentos previstos na área de infraestrutura e mobilidade no

país, que, segundo dados da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), devem alcançar R$ 470 bilhões iirjs próximos anos. Estão previstas a duplicação dos principais eixos rodoviários, novas concessões de rodovias, contemplando mais de 7,5 mil quilômetros; expansão, modernização e integração da malha ferroviária;investimentos em programas de arrendamento portuário; aumento da movimentação de cargas com redução de custos, investimentos em Terminais de Uso Privados (TUPs), entre outros.

Para Paulo Robson Alves, diretor de transportes da Zurich Seguros, atribui parte do resultado de 2013 ao fato, de o país ainda ter uma flagrante deficiência logística, tanto na qualidade das rodovias quanto na burocracia documental. “Diante desse cenário, os sinistros ocorrem com um desvio acima da média”, diz. Por essa razão, ele acredita que os programas de gerenciamento de riscos cada vez mais representam parte importante do contrato de seguros. Há medidas, segundo o especialista, que as transportadoras de carga podem efetivamente adotar visando não encarecer muito o custo das apólices. “Quanto mais proteção o transportador utilizar, menor será o custo do seguro, o que ajuda o corretora discutir um programa de proteção mais justo sob a forma de cobertura, taxas e franquias.”

As medidas mais comuns são cadastro de motoristas e rastreamento via satélite, Para alguns casos de carga de maior valor agregado também se utiliza escolta armada. “Novas metodologias têm sido discutidas e testadas visando a outro problema crônico relacionado diretamente aos acidentes de tráfego”, diz. Os temas que aparecem com mais freqüência nas discussões do segmento sào a roteirização e a telemetria. “Hoje em dia os acidentes superam, em quantidade e valores, o aumento da freqüência de roubo e furto de carga”, afirma o diretor da Zurich Seguros.

Há aspectos que também protegem a mercadoria e a integridade do motorista, além de gerareconomia de transportes. São eles: gerenciamento de frota, programação de viagens e cursos de direção defensiva para os motoristas c programas de manutenção dos veículos. Atentas à este cenário, as companhias passaram a aumentar a oferta de produtos mais sofisticados, A Zurich, por exemplo, oferece uma cobertura de permanência em armazém durante o processo produtivo do objeto segurado e posterior reinicio de viagem para entrega no destino final.

Com atuação global, a Zurich direciona sua estratégia tanto para seguros de embarcadores (proprietários de

cargas) como de transportadores. Para se diferenciar, criou um modelo de apólice mais simplificada, com oferta de sistemas de faturamento e emissão de certificado sem custo adicional ao segurado.

Tiago Camillo, gerente de apoio técnico de seguros de transporte da BB e Mapfie, acredita que os acidentes, para fins de sinistralidade, andam em paralelo com as ocorrências de roubo. A solução, a seu ver, está no treinamento e na capacitação freqüente dos motoristas medidas que ele considera de mais baixo custo para o segurado e que traz uma mudança cultural importante’ para o segmento, assim como para a indústria e comércio de modo geral. “Para enfrentar o problema dos acidentes de tráfego é preciso conhecê-lo sob todos os aspectos”, diz. “A redução de acidentes é um fator que acaba barateando o preço do seguro.”

A carteira de transporte da BBeMapfre tem crescido cerca de 10% ao ano. Em 2013, foram R$ 240 milhões de prêmios emitidos. O segmento, segundo Camilo, sofre o impacto direto do ritmo de desempenho da economia. O crescimento gera a realização de obras, movimentação da produção industria] e expansão do agro negócio.

Para a gerente de transportes da Porto Seguro, Rose Matos, o seguro de cargas passa por um momento de estabilidade e não há sinais de expansão para 2014. No ano passado, o crescimento da produção de transportes (incluindo casco e aéreo) foi de apenas 2,60%. Em 2013, o ramo de transporte da Porto Seguro registrou um faturamento de R$ 120 milhões.

Já Carlos Ronaldo Paes Ferreira, diretor da Rodpbens Corretora, estima um crescimento de 10% no volume total de prêmios em 2014.0 faturamento da corretora no ano passado foi de R$ 30 milhões no segmento transportes-quase 10% da receita total da empresa. Ogrupo também atua por meio da Kodobens Gerenciamento de Riscos, cujo foco é trabalhar em conjunto com os clientes, oferecendo serviços de cadastro e treinamento de motoristas e todo pessoal inerente à operação de transportes, monitoramento de veículos, roteirizaçào, relatórios de performance e informações logísticas.

João Carlos França de Mendonça, diretor-lécnico de transportes da Marítima Seguros, também antevê um crescimento de 10% em 2014, A Marítima fechou o ano de 205 3 com um faturamento de prêmios de mais de R$ 140 milhões no ramo de transportes, “O governo trabalha em questões regulamentares para modernizar o sistema, o que certamente terá um impacto positivo no seguro de transportes quando efetivado”, diz Mendonça. Com integração entre modais, os custos com o transporte de cargas devem cair, assim como também os riscos de perdas. “Isso deve impulsionar o segmento de cargas, com o seguro de transportes a reboque.” A Marítima teve o controle acionário adquirido pelo grupo Sompojapan e hoje, junto com a Yasuda Seguros, é uma subsidiária deste grupo no Brasil.

Na visão dos especialistas deste segmento de seguros,

embora o dais esteja experimentando um crescimento na necessidade de transporte de cargas, a mão de obra do segmento não está se qualificando na mesma velocidade, fazendo com que muitos profissionais da estrada não tenham o preparo suficiente para operar caminhões com tecnologia embarcada cacla vez mais avançada.

E o fator tecnológico é crucial para a gestão eficiente de riscos e a redução cio custo final das apólices. Além de contar com equipes especializadas em movimentação de cargas, as empresas passaram a adotar outras providências, como instalar sistemas de monitoramento, GPS e fazer triangulação de estações radiobase.

Todo esse monitoramento, que exige soluções baseadas em tecnologia, está relacionado ao processo logístico. As seguradoras cada vez mais reforçam equipes para oferecer serviços de apoio para que as empresas possam determinar rotas que evitem estradas mais perigosas ou que estejam em más condições. No caso de alguns segmentos mais visados em termos de roubo – como o de produtos eletrônicos, medicamentos e outros de alto valor agregado -, incluir escolta, isca eletrônica (para acompanhar o trajeto da carga, diretamente pela internet) e até o fracionamento da carga em mais de um veículo são algumas das medidas indicadas.

Para Ricardo Beyer, gerente de transportes da Chubb Seguros, o trabalho de análise inclui até a localização da transportadora, para determinar se o lugar oferece risco ou não. A Chubb conta com uma equipe própria e terceirizada que presta assessoria para prevenção de perdas, sem qualquer custo para o cliente. “Temos knowhow para cada tipo de risco e capacidade para identificar e sugerir a melhor forma de gerenciar essa questão.” Cabe à seguradora orientar os clientes na definição de medidas prevê n tivas. Segu ndo Beyer, é p rec i so e s tab ei ecer se é necessária uma assistência à descarga numa zona primária de fiscalização (que é quando a mercadoria é recebida pelo cliente), que tipo de embalagem é mais apropriado para o produto a ser transportado e quais são as características dos sinistros mais comuns para o tipo de carga e destino.
Valor Seguros B Transporte pg 52 e 53 0611

Fonte: Valor Econômico 10/06/2014